Sobre a divindade de Cristo: um trilema


Uma das muitas passagens que me chamam a atenção no segundo livro da série Crônicas de Nárnia, O leão, a feiticeira e o guarda-roupa (São Paulo: Martins Fontes, 2011), de C. S. Lewis, é aquela em que Pedro e Susana pedem conselho ao professor quanto a Lúcia – que insiste na existência de Nárnia, a que, segundo a garota, se poderia chegar por meio de um velho guarda-roupa – e Edmundo – que a desmente, sob a alegação de que tudo não se passa de uma brincadeira. O professor lhes escuta atentamente, e, então, lhes pergunta, "qual deles, pela experiência de vocês, é mais digno de crédito, o irmão ou a irmã?" (p. 123), a que ambos respondem, "Lúcia"; em seguida, o professor indaga, "Acham que ela está louca?", "Não", respondem; assim, as duas crianças são levadas ao seguinte raciocínio: 
— Lógica! — disse o professor para si mesmo. — Por que não ensinam mais lógica nas escolas? — E dirigindo-se aos meninos declarou: — Só há três possibilidades: ou Lúcia está mentindo; ou está louca; ou está falando a verdade. Ora, vocês sabem que ela não costuma mentir, e é evidente que não está louca. Por isso, enquanto não houver provas em contrário, temos de admitir que está falando a verdade. (LEWIS, 2011, p. 123, trad. Paulo M. Campos, grifo meu)


O trilema – mentindo, louca, ou falando a verdade –, que, como disse, me chamou a atenção, principalmente porque já me era familiar, parece se encontrar no Livro II de Cristianismo puro e simples (sobre o qual falo um pouco neste post), do mesmo autor. Na realidade, C. S. Lewis o teria sistematizado para o argumento em favor da divindade de Jesus, mas esse também pode ser de alguma forma identificado em Colloquia Peripatetica (1873), de John Duncan (veja trechos aqui, em português, ou aqui, em inglês), e, ainda, em G. K. Chesterton, em seu O homem eterno (São Paulo: Ecclesiae, 2014) – um dos livros favoritos de Lewis.
A (re)formulação do autor de Nárnia se daria, por sua vez, ao início da década de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, e seria reproduzida como "liar, lunatic or Lord" [mentiroso, lunático ou Senhor], por meio de programas de rádio pela BBC, dez anos após sua conversão do ateísmo ao Cristianismo. Segue o trilema (re)proposto por C. S. Lewis, no capítulo "A alternativa chocante" (p. 80) de CPS:
Quero evitar aqui que alguém diga a enorme tolice que muitos costumam dizer a respeito dele: "Estou pronto para aceitar a Jesus como um grande mestre de moral, mas não aceito sua reivindicação de ser Deus". Esse é o tipo de coisa que não se deve dizer. Um homem que fosse meramente um ser humano e dissesse o tipo de coisa que Jesus disse não seria um grande mestre de moral. De duas uma, ou ele seria um lunático – do nível de alguém que afirmasse ser um ovo frito – ou então seria o diabo em pessoa. Faça a sua escolha. Ou esse homem era, e é, o Filho de Deus; ou então um louco ou algo pior. Você pode descartá-lo como sendo um tolo ou pode cuspir nele e matá-lo como a um demônio; ou, então, poderá cair de joelhos a seus pés e chamá-lo de Senhor e Deus. Mas não me venha com essa conversa mole de ele ter sido um grande mestre de moral, pois ele não nos deu essa alternativa e nem tinha essa pretensão. (LEWIS, 2017, p. 86, trad. Gabriele Greggersen, grifo meu)
E, no capítulo seguinte, "O penitente perfeito", reitera:
[...] Agora, me parece óbvio que ele não era nem um lunático nem um fanático; e, consequentemente, por mais estranho, aterrorizante ou improvável que possa parecer, tenho de aceitar a visão de que ele era e é Deus (...). (ibidem, p. 87)
A partir dos trechos acima, extraem-se outro trilema, "louco, mau ou Deus", e, desse modo, três efeitos (como o autor sugere no artigo What are we to make of Jesus?), "ódio, terror ou adoração". 
Talvez, para a consideração desse trilema, muitos questionem se Jesus realmente se autodeclarava Deus. A resposta é sim, como demonstrado por Marcos, em 14:61-62: "Ele, porém, guardou silêncio e nada respondeu. Tornou a interrogá-lo o sumo sacerdote e lhe disse: És tu o Cristo, o Filho do Deus Bendito? Jesus respondeu: Eu sou, e vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo com as nuvens do céu." (ARA). Além disso, sua divindade é constantemente reafirmada nos quatro evangelhos (ver Mateus 3:3, Lucas 22:69 e João 10:30) por parte de seus discípulos, e, posteriormente, em cartas de apóstolos que sequer conviveram com Jesus. No artigo de Lewis – mencionado no parágrafo acima –, o autor defende que suas palavras – as de Cristo – devem receber crédito também por a maioria dos discípulos serem judeus, cuja religião sustentava a crença em um só Deus até então; e que, segundo o impacto da ressurreição de Jesus, isto é, sua vitória sobre a morte – segundo o Cristianismo –, que resulta em inúmeros relatos de testemunhas oculares – inclusive de judeus –, registros e a surpreendente disseminação do evento, aquele não deve ser tido como "lenda" nesses evangelhos, mas como o "Jesus histórico" e, portanto, Senhor.
Finalmente, retomo a narrativa sobre as quatro crianças. Ao adentrarem, todas juntas, o guarda-roupa e, consequentemente, o mundo de Nárnia, queixando-se do chão úmido e frio e de galhos que pinicam, Pedro e Susana admitem que Lúcia – que se encontra em silêncio até esse instante – dizia a verdade. Não há insultos nem orgulho, mas verdadeira humildade:
— Desculpe se eu não acreditei. Quer fazer as pazes?

— É claro. (ibidem, p. 126)

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