[Microconto] Cheiro de verão
O cheiro de verão já durava dois meses, e as luzes amarelas na rua principal, um. Essa era ocupada por muitos durante a noite; uma disputa por espaço nas calçadas e um corre-corre pelo não urgente confundiam aquele cheiro com suor humano, e o menino não podia distingui-los.
Ficou sentado, observando o olhar atento e preocupado de pais às lojas e suas indicações de melhor-valia, e o frenesi de crianças iludidas pelas cores, e buscando esquecer-se da dor do não olhar daqueles para si e da do estômago; essas ausências o espancavam, deixando-o à beira da calçada, imóvel.
Um senhor de terno passou por ali; o menino ergueu seu olhar para encontrá-lo, mas o daquele dirigiu-se ao meio-fio da calçada, seguido por seus passos. Passou, também, um jovem cantarolando; o menino manteve seu olhar em sua cintura, mas a melodia se afastou para o outro lado da rua. Por fim, aproximaram-se dois sapatos marrons, que não se dirigiram ao meio-fio nem ao outro lado da rua, mas foram encobertos por um par de joelhos que encostaram o chão.
“Menino, como você se chama?”. Lucas respondeu, e agora podia ver os olhos da pessoa. “Você quer comer alguma coisa?”, e ele disse que sim. Os dois foram, juntos, a uma padaria. Havia tanta coisa, que qualquer um ficaria desnorteado, só que Lucas queria panetone e coca-cola. Os dois falaram do movimento e da comida. Quando se despediram, abraçaram-se, e a pessoa lhe disse, “Feliz Natal, Lucas”.
Lucas voltou para a calçada e sentou-se. Não sentia dor nem ausência nem suor; sentia cócegas em seu peito e o cheiro de verão.
Conto publicado no jornal Fuxico, Feira de Santana - BA, p. 12, 31 março 2019.
Conto publicado no jornal Fuxico, Feira de Santana - BA, p. 12, 31 março 2019.



Comentários
Postar um comentário