Uma jornada de fé e dúvida n'O Expresso Polar
Inspirada no livro infantil de Chris Van Allsburg, a animação digital O Expresso Polar (2004) retrata a viagem de trem do Menino Herói, na noite de Natal, rumo ao Polo Norte. De seu embarque ao destino final, o garoto deve enfrentar situações como frear o Expresso Polar, recuperar um bilhete perdido, afastar renas dos trilhos, atravessar um lago de gelo, conhecer a fábrica de presentes do Papai Noel e chegar à Grande Praça antes da meia-noite. Mas, talvez, o maior desafio do Menino Herói tenha sido este: ouvir o som dos guizos de Natal.
É claro que isto significa algo mais. Ao início do filme, vemos o Menino Herói intrigado com o copo de leite e os biscoitos deixados sobre a mesa da sala, e com livros e recortes de jornais e revistas que apontam para a fantasia do Papai Noel. Ele não pode ser verdade. Por isso, apesar do Menino Herói embarcar no Expresso Polar e ter recebido um bilhete dourado com a letra "B", sua dúvida permanece e afeta outras crianças do trem.
A Heroína que se dispõe a conversar com ele demonstra ser, por outro lado, de fácil convicção: "É um trem mágico. Nós vamos para o Polo Norte". Sobre isso, ele pergunta: "A gente vai mesmo para o Polo Norte?". Esse ceticismo também se revela ao questionar e confundir a garota em qualquer decisão prática, como levar um chocolate quente para o garoto do outro vagão ou utilizar o freio correto: "Tem certeza?" Em um diálogo sobre o teto do trem, em que o Vagabundo lhe pergunta que relação ele mantém com o "Velhinho" (o Papai Noel), o Menino Herói explica: "Eu-eu quero acreditar, mas-", então é interrompido, "Você não quer cair no conto do vigário (...) Com você, é ver pra crer, não é mesmo?".
Como antecipado no primeiro parágrafo, o Menino Herói vê muita coisa ao longo da viagem, porém, no fim das contas, o que ele não consegue é ouvir. Embora tenha chegado ao Polo Norte, sua incerteza se mantém, de modo que seja incapaz de ouvir o som dos guizos, tão discerníveis para a Heroína e Billy. Ao afirmar, "Eu não tô ouvindo nada", e perguntar à Heroína se tem certeza sobre de onde vem aquele som, ela lhe responde: "Absoluta". As crianças se dirigem para aquela direção e, finalmente, encontram o Papai Noel.
O Menino Herói o avista de longe, mas é o desejo por ouvir um guizo que traz o Papai Noel para perto. A multidão de crianças e elfos não impede que a repetição da frase "Eu creio" pelo Menino Herói o permita ouvir o som do guizo e ser ouvido pelo Velhinho. Naquela noite de Natal, o guizo se torna, então, o primeiro presente, que, mesmo perdido pelo bolso rasgado do Menino Herói, se encontra na árvore de Natal na manhã seguinte, confirmando suas experiências como reais.
Assim, a jornada de fé e dúvida da Heroína e do Menino Herói se encerra com os bilhetes perfurados para a viagem de volta: o da garota, "Lead" (lidere), e o do garoto, "Believe" (acredite). A Heroína deve "mostrar o caminho", e o Menino Herói, sempre ouvir o som do guizo: porque eles não deixam de acreditar.
Mas como é bom o tempo do Natal
A jornada do Menino Herói ao Polo Norte parece nos ensinar que, nem sempre, evidências são determinantes para que consigamos acreditar em Algo ou Alguém; ao mesmo tempo em que a história retrata a insegurança do garoto quanto a ter uma certeza, ela não esconde que isso é, também, seu maior desejo. Já a jornada da Heroína sugere que certezas devem ser sustentadas, com convicção e paciência, de modo que sejam, enfim, recomendadas a quem faz as indagações.
Neste Natal, talvez pensemos - como o Menino Herói - que não há evidência para que Ele faça sentido: "Os sinos vão tocar / Por todo lado tem / Os anjos vão cantar / Eu nunca ouvi ninguém"; é procurando e colocando o guizo próximo ao ouvido que, talvez, ele ecoe. Mas, talvez, conheçamos ou tenhamos todas as evidências ou certezas - como a Heroína; por isso, devemos compartilhá-las sob a forma de alegria real: "A festa está por vir / É grande a emoção / Que vamos repartir / Em cada coração". Aí, talvez, os guizos de nossa fé possam ser ouvidos.
Um feliz Natal a todos - pelo Motivo que nos leva a acreditar.


Sensacional a relação transcendental que você fez falando de fé e dúvida neste filme! :)
ResponderExcluirUau!
ResponderExcluirAssistir esse filme agora nunca será a mesma coisa! Que análise incrível.
#JR
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