Oscars: O problema do mal em 'O Parasita'


No domingo de 9 de fevereiro, os Prêmios da Academia nas categorias de Melhor Roteiro Original, Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Diretor e Melhor Filme foram concedidos para a produção sul-coreana dirigida por Bong Joon-ho, O Parasita (2019). E não poderia ter sido diferente. 

O dinamismo e ironia dO Parasita retratam as desigualdades econômicas e sociais que os personagens suportam ou de que usufruem, de modo a denunciar o contraste entre essas realidades. Esse contraste se dá entre a família Ki-taek, completamente desempregada, e uma família de burgueses, cuja casa abre suas portas (de emprego) a cada membro da outra família, curiosamente após essa ter sido presenteada com uma rocha que atrairia riqueza material. 

A cena inicial em que os filhos Ki-taek se espremem para ter acesso à rede Wi-Fi alheia é bastante sugestiva quanto ao título e desenvolvimento do filme: o filho se faz um professor de inglês formado no exterior; a filha, uma sensível professora de Arte; o pai, um motorista particular experiente; e a mãe, uma empregada recomendável e de hábitos higiênicos. Assim, um a um, a família se infiltra na casa - sem que sua relação seja presumida -, podendo desfrutar de e vislumbrar perspectivas antes fora de cogitação.

Embora veladas, é das diferenças econômicas que emergem as sociais e seus preconceitos. A suposta falta de capacidade intelectual da mãe rica dá margem para que a família Ki-taek se estabeleça na casa; em contrapartida, o cheiro característico dos Ki-taek, distinguível pela criança Da-song, é descrito pelo pai rico como “cheiro de metrô, de pano velho”. De toda forma, enquanto lhes convém, as duas famílias aceitam ou ignoram essas diferenças, contanto que permaneçam “no limite”.

Não é de se impressionar que esses contrastes, sutilmente apresentados, ofereçam um clímax e desfecho absurdos. O primeiro deles se impõe à família Ki-taek por meio da descoberta de um semelhante vivendo sob os cuidados de sua esposa (a ex-empregada) às custas dos donos da casa. Apesar de sua condição financeira precária e de parasita subterrâneo, a escolha dos Ki-taek não é a empatia pelo casal, mas uma disputa pelo espaço e bens do outro, o diferente, que, por outro lado, expressa sincera repulsa pelo pobre.

Por fim, as desigualdades econômicas, as diferenças sociais, os preconceitos e a busca pelo conforto ou sobrevivência dos indivíduos se intensificam e resultam num caos de ingenuidade, cheiros, carências, intolerância e ódio. Aqui, a ironia não reside nos contrastes e exageros das realidades ou ações dos indivíduos, mas no que lhes é comum: todos possuem as mesmas inclinações motivadoras desse caos - porque, dentro de cada um deles, existe um parasita.

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