Aprendizado em tempos de pandemia

(AP Photo/Antonio Calanni)

Em seu sermão "Learning in War Time" [Aprendizado em tempos de guerra],* dado em Oxford em 1939, C. S. Lewis incentiva a manutenção da busca pelo conhecimento e de atividades acadêmicas apesar da guerra - no caso, a Segunda Guerra Mundial -, fazendo, sob perspectiva cristã, considerações sobre o conhecimento em si, cultura, política, religião e a morte. Embora seu foco estivesse sobre o interesse de estudantes, podemos extrair de seu sermão e da guerra que temos travado contra a Covid-19 algum aprendizado para nossa vida prática e cristã.

1. "A vida humana sempre viveu à beira do precipício. [...] Se os seres humanos tivessem de adiar a pesquisa pelo conhecimento e pela beleza até estarem seguros, a pesquisa jamais teria começado."
A busca pelo conhecimento precede o caos porque é inerente ao ser humano. Por isso, a pesquisa acontece em situações como a em que estamos vivendo ou não, o que significa que deve ser valorizada como um fim em si mesmo ou como um meio de que a sociedade possa se beneficiar. Neste link, por exemplo, observamos que universidades brasileiras e internacionais têm se esforçado não somente para desenvolver vacinas contra a Covid-19, como também para apontar estatísticas da expansão do vírus, a partir de que se pode, então, buscar medidas alternativas de contenção.

2. "Nem a conversão nem o alistamento no exército obliterarão a nossa vida humana [...] se você tentar suspender toda a sua atividade intelectual e estética, o único sucesso que você terá é a substituição de uma vida cultural ruim por uma melhor."
O contágio pela Covid-19 nos lembra de nossos deveres como cidadãos e necessidades como indivíduo. O isolamento voluntário não é fácil, e o acesso excessivo à informação (ou desinformação) pode nos levar ao desespero ou à obsessão. Assim, alternativas como visitar museus sem sair de casa, participar de cultos online e a disponibilização de aconselhamento terapêutico para questões difíceis sugerem a  prática de empatia e compaixão para com nosso semelhante, seja direta ou indiretamente.

3. "Um homem poderá ter de morrer por seu país, mas nenhuma pessoa deve, em nenhum sentido exclusivo, viver por seu país. Aquele que se entrega sem reservas às reivindicações temporais de uma nação, ou de um partido, ou de uma classe, estará entregando a César aquilo que, acima de tudo, pertence da forma mais enfática possível a Deus; estará entregando a sua própria pessoa."
As doutrinas nos ensinam que somos seres decaídos, e as autoridades não possuem natureza diferente; se as tratarmos como deuses inerrantes, nos decepcionaremos com uma esperança finita que, por fim, se tornará em desespero. Devemos julgar se o modo como elas lidam com a Covid-19 é adequado ou inadequado, e se suas decisões são eficazes ou ineficazes, manifestando-nos como quem serão diretamente afetados por aquelas. É por isso que é mais prudente acompanharmos suas recomendações e decisões enquanto buscamos o conhecimento por meio de fontes seguras e praticamos a empatia, ao invés de tratarmos a Covid-19 de forma histérica - como estocando alimentos perecíveis - ou lidarmos como com uma fantasia - que, no final das contas, ceifa centenas de vidas diariamente.

4. "Todas as nossas atividades naturais serão aceitas, se forem oferecidas a Deus, mesmo a mais humilde delas [...] Não é que o Cristianismo simplesmente substitui nossa vida natural por uma nova vida; é antes uma nova organização que cultiva esses materiais naturais para seus próprios fins sobrenaturais."
Em contexto de pandemia, o Cristianismo não deve deixar de ser praticado nem se tornar isento, mas deve glorificar a Deus por meio do cumprimento de práticas civis - como o isolamento voluntário -, e da evidência de um anseio pelo eterno e divino que é inerente a todo indivíduo - são ou contaminado. Em contraposição à rebelião e ao medo, recomendamos a razão, organização, e, principalmente, esperança.

5. "A guerra torna a morte real para nós e isso seria considerado como uma de suas bênçãos pela maioria dos grandes cristãos do passado [...] Toda a vida animal em nós, todos os esquemas de felicidade que estão centrados neste mundo, sempre estiveram fadados ao fracasso. Em tempos de normalidade, somente os mais sábios podiam reconhecer isso."
Além do desejo pelo eterno, a Covid-19 nos lembra do quão apegados nós somos ao tempo cronológico e ao mundo material, que perdem proporção e valor quando em contato com a morte. Embora eu me refira a algo transcendente, isso pode ser percebido a partir do tempo de contágio e número de vítimas na Itália e no restante do mundo, que ultrapassam nossa compreensão. Ao tomarmos conhecimento de dados como esses, devemos reconhecer que, aqui, somos finitos ao ponto de podermos fazer parte desses números, e reconhecer, ainda, que, embora devamos recomendar a esperança de vida, a que mais importa é a de vida eterna, proporcionada pelo sacrifício de Jesus Cristo - cujo valor transcende as bolsas em alta.

* "Aprendizado em tempos de guerra", O peso da glória, trad. Estevan F. Kirschner, Thomas Nelson Brasil, 2017.

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